"Prontos para o novo Ataque" - Após 13 anos, o Holocausto volta à cena com seu novo disco. De Volta ao Front é mais Hardcore do que Death Metal, mas mantém a acidez nas letras. Nessa entrevista, Valério (v/g) e Rodrigo (v/d) comentam todos os detalhes dessa volta, falam sobre as mudanças de sonoridade e relembram um pouco sobre a história do grupo.
De Volta ao Front. O sintomático título do novo álbum do Holocausto - o primeiro desde que a banda se dissolveu em 1994 - mostra que o grupo realmente voltou pra valer. As letras não são as mesmas que retratam o massacre nazista na segunda guerra, mas continuam tão ácidas como nunca, reportando dessa vez os conflitos religiosos, as guerras entre as culturas e a degeneração da raça humana. Para completar a nostalgia, o grupo ainda voltou com a sua formação original, com Valério "Exterminator" (v/g), Anderson "Guerrilheiro" (v/b) e Rodrigo "Führer" (v/d), o war trio - como eles gostam de rotular - que fez as primeiras apresentações da banda em 1986, antes mesmo do grupo gravar o seu primeiro trabalho, o inesquecível Campo de Extermínio, uma das maiores pérolas do Metal Nacional dos anos 80. Apesar de algumas referencias ao seu primeiro trabalho, De Volta ao Front é mais Hardcore do que Death Metal, embora este último ainda se faça presente. Em entrevista, Valério "Exterminator" (v/g) e Rodrigo "Führer" (v/d) comentam todos os detalhes dessa volta, explicam por que ficaram tanto tempo fora da cena e ainda falam sobre as mudanças de sonoridade e um pouco mais sobre a história do grupo.
Valhalla
Magazine - Por que somente após 13 anos vocês decidiram
reativar a banda?
Valério
- O Holocausto sempre teve problemas para manter uma formação
que conseguisse gravar dois álbuns consecutivos. Apenas o Rodrigo
se manteve na banda até o seu final, em 1994. Com as outras atividades
(estudos, trabalho e família), nosso contato foi ficando cada vez
mais difícil e por esse motivo a reativação levou
tantos anos.
Valhalla
Magazine - E como pintou a idéia de se reunir novamente?
Valério
- O Anderson me ligou avisando sobre o interesse da Cogumelo em relançar
o Campo de Extermínio em CD, e assim que ele terminou de falar,
aproveitei e perguntei se ele e o Rodrigo teriam interesse em voltar, pedindo
que me retornasse assim que tivesse a resposta. No dia 18 de dezembro de
2004, estávamos entrando em estúdio para o primeiro ensaio,
depois de 16 anos afastados.
Valhalla
Magazine - E qual foi a sensação de gravar novamente
com os mesmos companheiros de 20 anos atrás?
Valério
- Nos sentimos extremamente unidos pelo Holocausto, afinal, temos uma
história de 20 anos, com muitos momentos de felicidade e alguns
de profunda tristeza, como a morte do nosso baixista Marco, em um acampamento
onde todos da banda e amigos estavam presentes.
Valhalla
Magazine - De Volta ao Front mostra um trabalho mais direcionado ao
Hardcoe do que propriamente ao Death metal. Como está a recepção
dos antigos fãs em relação ao novo disco?
Valério
- Muito positiva. Inclusive, muitos deles deixaram mensagens em nosso
site fazendo questão de lembrar que no primeiro disco já
deixávamos claro nosa influência Hardcore. Todas as músicas
estão sendo muito elogiadas. Para alguns as melhores são
as mais pesadas, para outros as mais rápidas. Outros dizem que são
as que mais lembram o nosso primeiro álbum, e têm ainda alguns
que dizem que são as mais Hardcore que já fizemos. Acreditamos
que se não tivéssemos nos separado, gravaríamos o
mesmo De Volta ao Front em 1988. É fácil entender o por quê
disso. Nossas influências não mudaram e embora nossos pensamentos
tenham evoluído, a essência sempre será a mesma. O
Holocausto não toca o que está no mercado, e sim aquilo que
acredita. Aqueles de mente aberta receberão me nosso trabalho, e
aqueles que pararam no tempo, podem ficar curtindo o Campo de Extermínio
pelo resto de suas vidas. O Holocausto agradece a todos da mesma maneira.
Valhalla
Magazine - Apesar de musicalmente deferente, De Volta ao Front mostra
uma grande referência em termos de letras ao Campo de Extermínio,
fazendo menção a coisas atuais como os conflitos religiosos,
as guerras entre culturas e a degeneração da raça
humana. Essa continua sendo uma das principais características da
banda?
Valério
- Enquanto os membros originais estiverem na banda, o Holocausto sempre
relatará os fatos ocorridos na humanidade. Esperamos que nossos
fãs e mesmo aquelas que não curtam a banda, possam repensar
sobre todo esse processo de evolução da humanidade e entenderem
onde sua participação individual tem colaborado para o caos
atual. Fazemos parte de um todo e o que fazemos pode sim afetar toda a
humanidade.
Valhalla
Magazine - Todas as letras do novo álbum possuem traduções
em inglês. Vocês estão visando o mercado exterior dessa
vez?
Valério
- Sem dúvida. Por não ter tradução, o Campo...
teve uma interpretação equivocada no exterior. O Holocausto
tem muito interesse em fazer boas letras e penso que temos conseguido com
êxito.
Valhalla
Magazine - Já que você tocou no assunto, a versão
em CD do Campo de Extermínio traz um aviso dizendo que a banda não
faz apologia ao nazismo, apenas faz um relato histórico através
da música. Vocês não imaginavam que poderiam ser tão
mal interpretados quanto foram naquela época?
Valério
- Muitas vezes alguns fatos acontecem e são necessários
ou ajudam você a rever seus conceitos. Mas no caso do Holocausto,
nossa proposta não mudou devido a esse incidente, pois sempre vamos
relatar os fatos ocorridos na humanidade.
Valhalla
Magazine - A faixa "Warfare Noise" é uma homenagem a Cogumelo
e as bandas que participaram dessa clássica coletânea homônima.
A letra foi escrita pelo Korg (Chakal) e pelo Silvio SDN (Mutilator), e
ambos cantam nela. Qual foi a idéia principal dessa homenagem?
Valério
- A idéia principal dessa música é homenagear
todos que fizeram parte dos anos 80: à Cogumelo que acreditou nas
bandas, ao Chakal, Mutilator e Sarcófago por tudo que passamos juntos,
aos bangers de BH, ao Sepultura e todos que fizeram de BH a capital mundial
do Metal. Essa música também é para aqueles que fizeram
sua passagem e jamais serão esquecidos como o Marco (Holocausto);
Silvinho (Freax); Reinaldo Cavalão (Mayhem); Oswaldo (Sextrash)
e Magoo (Mutilator).
Valhalla
Magazine - Hoje a cena nacional é bem diferente daquela de 20
anos atrás. Para uma banda que viveu e foi uma das mais importantes
daquele período, que mudanças você apontaria como as
principais?
Valério
- As mudanças acontecem naturalmente, mas quando isso ocorre
para "agradar" o mercado, não vejo com bons olhos. O que me preocupa
hoje é o radicalismo de determinados grupos de bangers que só
curtem Death e Thrash, enquanto outros só curtem Black Metal, e
por aí vai. Esse radicalismo enfraquece o movimento e não
pode ser bom para ninguém. Não tem vencedores, mas um perdedor,
que é o Metal.
Valhalla
Magazine - O Holocausto foi uma das bandas que mais teve repercussão
no exterior, influenciando nomes como Impaled Nazarene, Ancient Rites,
Behemoth, entre outras. Você tinha idéia do impacto que o
Campo de Extermínio teve na cena metálica mundial?
Valério
- Não tinha idéia. Fiquei impressionado e muito emocionado
quando retornei e fui percebendo aos poucos o que o Campo de Extermínio
tinha conseguido. Entrei na internet e comecei até a anotar as bandas
de fora que assumiram sua influência do Holocausto e que consideram
o Campo... como um dos 10 melhores LPs de todos os tempos. Isso nos deixa
muito orgulhosos e reafirma nossa convicção de retornar porque
acreditamos em nossa banda.
Valhalla
Magazine - Os álbuns Negatives (90) e Tozago as Deismno (93)
vieram com propostas totalmente diferentes dos dois primeiros discos do
Holocausto, flertando demais com o industrial, doom e até com a
psicodelia. Hoje como você avalia esses trabalhos? Foi por causa
da má recepção deles que vocês decidiram desativar
a banda?
Rodrigo
- Esses álbuns são reflexos de uma época. Particularmente
gosto e os considero importantes. Só decidimos terminar a banda
porque ela foi muito descaracterizada. Nunca nos preocupamos com o sucesso.
Valhalla
Magazine - Nessa época, vocês lançaram um projeto
experimental jazz/rock/avantgarde chamado PexbaA. O que aconteceu com ele?
Rodrigo
- O PexbaA ainda está na ativa, já gravou dois discos
e está gravando o terceito por um selo de São Paulo chamado
Amplitude. O PexbaA faz uma música de protesto contra a música
de massa e mídia. Fizemos shows nos EUA, França, Holanda
e Bélgica. A banda é formado por Rossano (v), Lobão
(g), João Marcelo (b) e eu na bateria. Ou seja, os membros da última
formação do Holocausto antes do término da banda.
Valhalla
Magazine - Com De Volta ao Front, o Holocausto volta a fazer parte
do cenário nacional. Como se trata de um recomeço, você
acredita que a banda poderá alcançar a mesma receptividade
que teve no seu início de carreira?
Valério
- Acreditamos no Holocausto, senão, não teríamos
voltado. Temos outras ocupações e não esperamos ganhar
dinheiro para abandonar nossas profissões. Voltamos devido ao amor
e respeito que temos pelo Holocausto. Em 1985 o Holocausto apresentou para
o mundo o estilo War Metal. Vinte anos depois, apresentamos um novo estilo,
o Warcore, e não imaginamos como vai ser, embora mais uma vez estejamos
fazendo isso porque acreditamos em nossa proposta. O objetivo é
fazer o que sabemos, acreditamos e amamos, que é tocar e gravar
pelo Holocausto. Estamos de volta para unir as bandas que, com extrema
competência, mantiveram o nível da cena Metal nacional em
alta.
Por: Vinicius Mariano & Valhalla Magazine.